Espaço numérico digital destinado à circulação de informações culturais e de idéias provenientes de pessoas e dos afins dos descendentes físicos ou do pensamento de Mathias Simon (*05.05.1788 –+16.04.1866) e que ele materializou, em 1829, na migração com a sua família para a América.

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quarta-feira, 2 de março de 2011

Em DIA com a CULTURA dos SIMON – 11



A DIÁSPORA dos FILHOS de MATHIAS
 ou
A CULTURA da COLONIZAÇÃO ORGANIZADA em MINIFUNDIO é DIFERENTE daquela do LATIFUNDIO.

“As ações para o crescimento da Associação são cada vez mais prementes, sugerindo-se o emprego de recursos tecnológicos como criação urgente de “sites”; encontros mais freqüentes com atividades para os jovens; acesso fácil aos descendentes à árvore genealógica”.
 CARTA de PASSO FUNDO,– 2º ENCONTRO CULTURAL dos SIMON
22 de maio de 2004 IIº RAIZES SIMON JORNAL dos SIMON Nº 24 julho de 2004 – p. 3

Ao retomar esta série de artigos trata-se de ser consequente com a Carta do II RAIZES da FAMÍLIA SIMON. Coloca-se como norte, nesta nova série, o III RAIZES a ser realizado, em Passo Fundo-RS, nos dias 28 e 29 de maio de 2011.
                                                                                                               
Fonte de imagem –Círio SIMON 15.11.2004
Fig 01 – Um dos umbrais da porta principal da Casa Simon na CAPELA ROSÁRIO –em São José do Hortêncio RS
Este artigo está carregado de mais dúvidas do que certezas. A divulgação desta dúvidas busca constituir-se mais em provocação do que uma contribuição com documentos. Os poucos documentos acessíveis encontrados, em relação  cada um filhos do casal Mathias e Margarida Simon, geram estas dúvidas. O objetivo único da provocação é “para que os jovens tenham acesso fácil aos descendentes à árvore genealógica”  como diz a Carta de Passo Fundo 2004. Impõe-se o esforço para que todos encontrem dados de cada filha ou filho de Mathias e de  Margarida e os socializem entre todos os descendentes,. Não se pretende nenhuma competição ou gincana, mas dados em fontes seguras. Esta tarefa torna-se possível por meio dos registros civis  religiosos do nascimento, batizado, crisma ou casamento. Os registros de terras e propriedades com certeza são outras fontes. Contudo permanece a ignorância e a provocação com o objetivo de que a nova geração seja mais inteligente e esclarecida, em relação aos seus antepassados, do que o é  este escriba.
A figura do casal Mathias e Margarida, patriarca de todos  foi estudada em vários ângulos inclusive neste blog e desenvolvido na ótica da sua inserção na história do Estado. Chegou a hora de conferir atenção e o foco sobre os seus descendente diretos e a sua diáspora pelas Américas. Ainda não se possuem as datas mais importantes de cada uma destas filhas e filhos que empreenderam esta dispersão a partir da  casa paterna da Capela Rosário de São José do Hortêncio-RS-BR. O foco é o que mostra o gráfico a seguir:

Fig 02 – A 1ª geração dos descendentes de Mathias e Margarida Simon nas Américas e os dados pessoais ainda desconhecidos
Talvez não se encontre o registro daquele momento em que,  a filha ou o filho, lança o seu último e derradeiro olhar para porta da casa paterna. Este momento significava que eles começariam a sua própria história familiar. Em geral este momento era marcado pelas festividades de casamentos e que celebrava um dos momentos culminantes para transformar a tristeza, de ambas as partes, em esperança e numa aposta no futuro melhor. Para os patriarcas significava que eles tinham cumprido a contento a sua missão. As fotos destes casamentos são documentos preciosos destas celebrações
  
  Fonte de imagem – GOOGLE EART - 2011
Fig 03 – CAPELA ROSÁRIO – São José do Hortêncio RS

 Para os filhos, que empreendiam os seus vôos nupciais, significava dar continuidade ao projeto dos seus pais que haviam deixado tudo do outro lado do oceano,  renovar e viver também esta aventura. Esta fidelidade à terra, escolhida pelos seus pais, fazem desta geração uma pedra angular de uma nova civilização. É esta geração que entrou em contato mais amplo com uma outra cultura e encontrou meios para a fidelidade á terra e aos projetos aceito e colocado em prática pelos seus pais.
No contraditório desta felicidade, ainda não temos notícias mais detalhadas daqueles que não puderam fazer este vôo nupcial, como a Helena e a Bárbara. Sabe-se apenas que faleceram em criança, mas sem as circunstâncias e as datas deste desaparecimento precoce

Clique em cima do gráfico para ampliá-lo e poder ler
Fig 04 – As COLÔNIAS "VELHAS".
Outro índice pode ser visto pelo início dos casamentos inter étnicos. Ao percorrer os nomes da árvore genealógica começa-se a percebe nos sobrenome Martini como marido de Rosa Simon e Spaniol como consorte de Mathias Simon. Esta integração será mais ampla já na 2ª geração quando os Vargas a etnia luso-brasileira vem somar-se ao Zannocchi e Pecoruy. Esta integração inter-étnica irá expandir-se num crescendo harmonioso na medida que o tempo passa Fig 05 – A 1ª geração e consortes

 Por este índice percebe-se que a diáspora não se limitou à Geografia. Ela prosseguiu também no âmbito étnico e cultural
Pelo lado da  cultura há necessidade de examinar o contraste entre aquela dos grandes latifúndios e os minifúndios  destinados aos emigrantes europeus.

Fonte de imagem – GOOGLE EART - 2011
Fig 06 – CAPELA ROSÁRIO – São José do Hortêncio RS – A Vila
O contraste entre a cultura dos grandes latifúndios e a cultura dos minifúndios são de largo espectros. São tão amplos que os indivíduos movem-se neles sem perceberem, muitas vezes, as suas nuances e assim são absorvidos subliminarmente por um e outro .
 A cultura do minifúndio é limitada e pessoal como são as parcas terras demarcadas por seus estreitos e rígidos limites. As parcas terras eram calculadas para o sustento de um grupo como aquele da família média Mathias Simon. O crescimento desta prole inviabiliza a expansão deste grupo familiar no interior deste limite. Na Europa a expansão do contingente que sobrava neste crescimento formava o exército dos PROLETÁRIOS (prole dada) e que se destinada à crescente industrialização que acumulava gente, insumos e capitais em espaços geográficos cada vez menores. O Brasil, na época de Mathias, não tinha saída industrial para esta prole proveniente dos núcleos familiares do minifúndio. A solução era a DIÁSPORA no imenso e inexplorado território nacional. Esta prole carregava a cultura nas suas mentalidades íntegra, reproduzindo as técnicas e os princípios dos modos produtivos que a lógica do MINIFUNDIO impunha.  Entre os descendentes da Mathias e Margarida este autor não conhece descendentes que optaram - ou lhes foi facultado - o acesso ao latifúndio e à produção extensiva.
Enquanto esta cultura do minifúndio alcançava os seus primeiros êxitos no Brasil, a cultura do latifúndio prosseguiu na sua trajetória de feudo e com administração pensada em regime militar com patrão provedor das necessidades básicas dos herdeiros, da mão de obra e dos associados pela defesa de interesses recíprocos. Esta cultura do latifúndio veio se cristalizar simbolicamente e consagrar-se nos CTG’s e MTG espalhados pelo mundo todo.
Fonte de imagem – GOOGLE EART – 2011
Fig 07 – CAPELA ROSÁRIO – São José do Hortêncio RS – a capela
Enquanto isto a cultura do minifúndio necessita tirar o máximo do mínimo da terra. O passo seguinte deste minifúndio foi agregar valores a este produto da terra limitada. O moinho colonial foi, no caso de Mathias e a sua família, a forma de agregar este valor. Apesar disto, no horizonte pairava o potencial da industrialização e a urbanização intensiva.
Como esta  industrialização e a urbanização era apenas potencial a primeira geração dos filhos de Mathias e de Margarida desviou-se deste horizonte. Ela  foi buscar novas terras para reproduzir a experiência dos seus pais. Este processo gerou um movimento que povoou o interior brasileiro  e sul-americano em fronteiras agrícolas. Deste processo se conhece ainda pouco. Não se atingiu ainda o ócio criativo para poder cultivar a memória desta epopéia que pode ser comparada à conquista do Oeste Norte-Americano. .O escritor Vianna Moog comparou a aventura dos bandeirantes que precederam cronologicamente os pioneiros norte-americanos. Restaria a comparação entre as levas de imigrantes sul-americanos que se lançaram sincronicamente com pioneiros norte-americanos na fixação e civilização destas terras conquistadas pelos bandeirantes
Pelo que se viu neste artigo Mathias Simon procurou ampliar, ao máximo, a sua residência e diversificar as suas atividades pré-industrias e comerciais para manter os seus na cultura do  minifúndio. Contudo a sua prole resolveu imitar os seus passos de pioneiro, buscar novas terras para repetir o êxito do pai em outros rumos neste imenso continente americano.
Impõe-se agir, documentar e registrar estes passos no  rumo desta nova civilização. E nada melhor do que contemplar e registrar um fractal deste largo processo na figura de uma família. O núcleo original da familiar de Mathias e Margarida necessita destes esforços dos seus atuais descendentes. Esforço para fornecer à nova geração mais luzes confiáveis e seguras do caminho que deverão percorrer em outros tempos e lugares. Contudo providos da cultura que comprovou dar certo no núcleo de origem mas com evidente necessidade de atualização e alargamento.
Esta é a segunda versão deste post.
O jornalista Camilo Simon o percorreu a 1ª versão, lançada no dia 02.03.2011, e percebeu faltas graves de informações diante do acervo logística que a Família Simon dispõe, a começar pelo seu Jornal dos SIMON. Assim abriu, com toda a solicitude e atenção, o detalhado ARQUIVO de PEDRO EMANUEL SIMON (1888-1966). Assim puderam ser sanadas várias falhas. Contudo as pesquisas e as buscas são infinitas diante de riqueza da vida dos descendentes e afins de Mathias Simon.
 Nos dias atuais seria humanamente impossível reunir, em relação à família de MATHIAS SIMON nas Américas, o que este professor, dentista  e pesquisador genealógico, havia recolhido. Para oferecer apenas uma amostra, do que afirma aqui, ilustra-se com a imagem de uma das numerosas fichas com dados recolhidos em diversas fontes e épocas.
Fonte de imagem – Arquivo PEDRO EMANUEL SIMON
Fig 08 – Uma das fichas do Arquivo do Prof Pedro Emanuel SIMON
 Na ótica da inserção da FAMILIA MATHIAS SIMON e DESCENDENTES na história do Estado, da Nação e do Continente, há necessidade urgente a maior atenção possível em relação a esta parte logística dos arquivos e documentos que se irá remeter para geração seguinte. Giorgio Vasari (1511-1574), o primeiro historiador de Renascimento Italiano, pode realiza a sua obra monumental a partir dos documentos que as FAMÍLIAS dos artistas haviam guardado.  Chegou a hora de conferir atenção e o foco sobre os seus descendente atuais na sua diáspora pelas Américas.
Os descendente diretos de Mathias mantiveram ao redor de um certo núcleo e num época de muita vida para o interior da Família. Hoje, além da enorme dispersão geográfica, os interesses, as informações externas á Família e os naturais ruídos são muito mais fortes e agressivos do que aqueles que chegavam à Capela Rosário.
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FONTES
 Genealogia de Mathias Simon Jornal dos Simon - Porto Alegre : Associação da Família Simon e Afins. Ano II, nº 3,  fevereiro de 1979  pp. 3 até 5

Arquivo Pedro Emanuel Simon aos cuidados de Camilo Simon – consultado pelo autor no dia 15.03.2011


Família WERLANG com os filhos de Matias SIMON
Família WERLANG com informações relativas a João (Johannes ) SIMON casado com Maria Werlang
http://www.editorawerlang.com.br/werlangVIa.asp    
1. Maria Werlang
, cat., * São José do Hortêncio,...; oo São José do Hortêncio 1846 Johannes Simon, cat., * Hermeskeil 11.12.1824, Santa Catarina da Feliz 4.7.1900. Filho de Mathias Simon e de Margarethe Würz.
Família KERBER

VIANNA MOOG, Clodomir (1906-1988) Bandeirantes e Pioneiros: paralelo entre duas culturas (11ª ed.) Porto Alegre : Globo, 1974, 320 p



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sábado, 27 de novembro de 2010

Em DIA com a CULTURA dos SIMON – 10



A CONTABILIDADE do CUSTO BENEFÍCIO da COLONIZAÇÂO ORGANIZADA em LARGA ESCALA.
[ou uma das causas indiretas possíveis da Revolução Farroupilha]
Fig. 01 – Francis PELICHEK (1896-1937)[1] O sonho do equilíbrio ideal entre Pecuária, Indústria e Agricultura- Cartão postal do ano de 1931

O objetivo ideal - da migração Mathias Simon, em 1829,  e do  governo Provincial - era desenvolver uma agricultura um pouco mais evoluída do que aquela da simples subsistência. Contudo, em 1849, a autoridade máxima da Província ainda declarava  que a “Agricultura é um ramo desconhecido na Província”.
Pouco se escreve, e muito menos se divulga, em relação à contabilidade dos custos e dos benefícios da imigração. Contabilidade na qual se considera a circulação das riquezas monetárias disponibilizadas nas operações da atração, do transporte, da localização e da fixação de populações estranhas à cultura nacional e os benefícios para o erário público.
Preferem-se as narrativas emocionais e os discursos avulsos dos deslocados. Ou, então, os discursos ideológicos e gerais dos políticos que se envolvem ou promovem estes movimentos humanos. De outra parte, não se consulta os incomodados e os não contemplados com este projeto e verbas do erário publico. Omissão que é uma constante na colonização européia e que se praticou sempre em relação aos indígenas ou aqueles que há muito tempo se estabeleceram em qualquer parte do território nacional.
Evidente que toda mudança encontra resistências visíveis e invisíveis e é evitada ao máximo possível.
Fig. 02  José Feliciano FERNANDES PINHEIRO - Visconde de São Leopoldo – Presidente da Província de São Pedro do Rio Grande que recebeu em 1824 os imigrantes alemães.

Certamente que José Feliciano FERNANDES PINHEIRO, Presidente da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, em 1824, abriu uma porta concretamente e sem grandes discursos, não só aos migrantes pobres e necessitados, mas planejou, introduziu e amparou uma cultura e um modo de produção agrícola que colocam o Brasil como um dos grandes celeiros do mundo atual.
Fig.  03 -  José Feliciano FERNANDES PINHEIRO - Visconde de São Leopoldo – Presidente da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul em 1824. Placa em Santos – SP a sua cidade natal

O pequeno, mas decisivo experimento, nesta direção, continuava a ter o apoio do Presidente Caetano Maria LOPES GAMA, Visconde de Maranguape[1] que, em seu Relatório de 1830, à Assembléia Legislativa da Província, não faz só referência, mas tece elogios aos resultados.  Contudo não deixou de expressar apreensões em relação à autêntica experiência de interação do contingente germânico ao âmbito nacional e da Província de São Pedro.
Fig. 04  -Caetano Maria LOPES GAMA,  Visconde de Maranguape. ocupou a presidência da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul de 17 de novembro de 1829   até 20 de dezembro de 1830
As colônias de S. Leopoldo e de S. Pedro de Alcântara promettem grandes vantagens à esta Província na agricultura e outros ramos da industria vão progressivamente prosperando. A segunda Colonia está mais nacionalisada pela fusão dos colonos com os naturais do paiz que alli se achão estabelecidos. A de S. Leopoldo, mais considerável por contar mais de 4.000 almas, está quase segregada dos estabelecimentos brasileiros. Não he precisa grande penetacão para prever os males   para o futuro se hão de seguir de huma isolação a todos  perniciosa. Eu penso, quão he indispensável a resolução de se concederem  graciosamente datas de terras naquellas Colônias aos Brasileiros”. http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/u1053/000007.html

Contudo esta apreensão do Presidente foi resolvida de outra forma e do “jeitinho”  brasileiro.  Jeitinho que Arsène observou em 1834, escreveu e publicou, em 1835,  na Europa (Havre) onde admite que
“Muitos brasileiros, consultando mais seu interesse privado do que a sua inclinação naturalmente invejosa da propriedade dos estrangeiros, começaram a estabelecer-se na colônia, comprando muito caro os terrenos concedidos aos alemães, que este lhes cediam de boa vontade na esperança de formar em outro lugar maiores estabelecimentos. O sentimento de emulação  acabará nascendo entre os brasileiros, à vista de tantas dificuldades vencidas por homens industriosos, ou, ao mesmo, o orgulho nacional se sentirá interessado no progresso da colônia, o que deve trazer excelentes resultados à região”. (Isabelle, 2010  p.253)

Numa carta de Joahann Friedreich, escrita no dia 01 de janeiro de 1832, este imigrante, de São Leopoldo, permite-nos o acesso a alguns números do investimento e dos gastos do erário publico imperial brasileiro com o projeto da imigração massiva alemã.
“No primeiro ano de estada aqui recebemos nós, como qualquer outra família alemã, 8 vinténs por cada dia um, no segundo ano 4 vinténs por dia, 18 vnténs correspondem a um florim, 48 vinténs forma um Taler. Estes subsídios recebidos do Imperador nos foram de grande valia. Durante 10 anos estamos isentos de qualquer tributo e depois deste período os impostos representam muito pouco. Tranqüilidade e paz são a nossa  felicidade todo este tempo. Trabalhar é obrigação de cada pessoa em qualquer lugar se ela quiser ter honestamente sucesso. Todos os produtos da terra podem ser colocados facilmente e convertidos em dinheiro. Um clima saudável, ar puro, água limpa e saborosa temos aqui”

Há condições de pensar numa "Bolsa Família". Contudo era por tempo determinado, não era hereditária e nem universal para todos os sul-rio-grandenses. Mesmo assim, se a população do imigrantes era de 10% da população da Província, a  soma, o cronograma do desembolso e a periodicidade de sua distribuição... era um peso respeitável a considerar no orçamento do erário imperial. Além disto esta despesa publica era realizada no interior de um projeto com início, meio e fim. Este fim incluía a recuperação e retorno ao erário publico deste valor investido e a sua multiplicação.
Não há como afastar estes gastos monetários das causas políticas indiretas da Revolução Farroupilha. O erário publico nacional e o provincial são a parte mais sensível do corpo político. Esta Revolução teve como foco os tributos “escorchantes” do Império sobre a Província. A causa monetarista - do custo da primeira etapa da imigração alemã - não pode ser afastada definitivamente. Causa que nenhum dos dois lados queira falar e sustentar para não acirrar ânimos e paradigmas econômicos opostos e de longa duração, ainda que subterrânea. Há necessidade de incluir os gastos com a primeira etapa da imigração alemã na sua atração, no transporte, na localização e nas indenizações, além dos continuados pagamentos da fixação e da sustentabilidade do projeto da colônia germânica no Rio Grande do Sul. A carga tributária do Império - sobre a Província de São Pedro – com certeza tinha como referencial este investimento monetário. Evidente o peso político de um novo paradigma produtivo do minifúndio auto-sustentável  estava em oposição diametral ao latifúndio improdutivo e geograficamente imensamente maior do que as áreas ocupadas pelo agricultor profissional recém chegado.

Fig. 05 – LUTZENBERGER, Joseph (1882-1951) -  OS FARRAPOS

Para muitos latifundiários - donos terras, bestas e pessoas – o projeto da colônia imperial era uma ameaça concreta ao seu poder ancestral e hereditário.
Uma grande quantidade de sítios magníficos, de terrenos fertilíssimos e próprios à cultura de cereais, algodão, açúcar, café e mandioca, ficarão ainda por muito tempo habitados unicamente por bois, carneiros, mulas  e cavalos”(Isabelle, 2010, p.222).

No embate físico da Revolução Farroupilha este contingente de migrantes germânicos estava escaldado pela Revolução Francesa e os anos das Guerras Napoleônicas. Mathias Simon havia feito esta experiência como soldado. Diante destas crueis experiências houve apenas adesões individuais para um e  ou outro lado. Mas não que fossem decisivos para nenhum dos lados em conflito, não provocando rupturas internas e irreparáveis na colônia alemã.
Dissipadas a fumaça das lutas e as nuvens destas borrascas, evidente, que  as somas monetárias falam por si mesmas na atualidade. Basta uma simples consulta ao mapa do Rio Grande do Sul,  observar as suas comunidades mais ricas e produtivas para o erário público.  Certamente a balança pende para o lado onde se fixou este migrante pobre e que recomeçou a sua vida no aproveitamento de um solo distribuído por este projeto estatal.
Isto não significa que o gérmen da desconfiança e de possíveis novas erupções das diferenças, entre latifúndio improdutivo e agricultura, podem tomar mil e uma outras aparências.
Fig. 06 – Clébio SÓRIA (1934-1987)[1] – Os imigrantes agricultores – Porto Alegre -  Mural  Trensurb -1986
Longe do Rio Grande do Sul o italiano Bartolomé Bossi (1819-1889) percorreu e explorou o remoto Mato Grosso no distante ano de 1862. Viajou financiado pelo Banco do Barão de Mauá. Encontrou muitos italianos emigrados espontaneamente, com Itália ainda não unificada e antes da imigração planejada e financiada pelo projeto estatal, na década de 1870. Ele distinguiu, escreveu e publicou que:
Há dois sistemas que trazer perante a consideração dos homens de Estado, das inteligências profundas que o Brasil encerra, a saber: se deve-se preferir o paulatino ingresso da colonização espontânea ou se é conveniente para a província de Mato Grosso promover a internação das colônias organizadas em grande escala e promovidas nas fontes exuberantes de população européia (Bossi, 2008, p 119)
O italiano Bartolomé Bossi é inteiramente favorável à opção da imigração em larga escala. Defende que o Estado nacional planeje, atraia, conduza e financie a imigração massiva, para proveito recíproco. Para isto aduz:
a vantagem que uma nação, ou um Estado qualquer, deve esperar da colonização é, por assim dizer, uma permuta de conveniência. Introduzem-se levas de habitantes estranhos, com grande custo e com grandes promessas, não como gosto filantrópico de melhorar a sua sorte e de enriquecê-las. São trazidos para afastar os desertos, para explorar em comum a riqueza natural, para formar povoados, para dar valor à propriedade, para aumentar o consumo e a produção, para fixar uma base para os futuros ingressos de outras população espontânea que virá, para tornar indispensável e permanente o comércio com seu cortejo de indústrias, de capitais, de civilização; e com os profusos acessórios do gosto e a recreação da arte que fazem os encantos da vida ” (Bossi, 2008, p 120)

Com estas observações oficiais, e de particulares, possuímos dados para imaginar a dura batalha que Mathias Simon deveria travar com uma cultura e uma economia local na qual Agricultura é um ramo desconhecido na Província”. A afirmação é de 1849 é proveniente da autoridade máxima da Província do Rio Grande do Sul, o Tenente General Francisco José de Souza Soares Andréia (1781-1858)[2], portanto vinte anos depois de Mathias desembarcar e de estabelecer-se no seu lote rural de Capela Rosário.

Fig. 07 - Tenente General Francisco José de SOUZA SOARES ANDRÉIA (1781-1858) Barão de Caçapava presidente da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul (1848-1850)

Quatro anos após a Pacificação, o presidente da Província, Tenente General Francisco José de Souza Soares Andréia, voz do governo imperial, enviou, em 01 de junho de 1849, um relatório à Assembléia Legislativa[1]. Neste relatório ele expressa a desproporção e desperdício de terras entregues à Natureza e aos seus donos hereditários. Vale a pena ler na íntegra e na grafia da época este texto é antológico. Pelos problemas da época e que, nos dias atuais, quase dois séculos depois, arrastam-se ainda sem uma solução plena, reproduz-se aqui o  trecho escrito por esta autoridade em relação à:
“Agricultura.
He este hum ramo desconhecido na Provincia.
Há legoas não interrompidas de terreno em que não existe huma só arvore plantada, e em que nenhuma semente tem sido lançada à terra, e o terreno presta-se a quais tudo.
A ferrugem desanimou tão completamente aos lavradores de trigo, que raro he lugar em que hum ou outro ainda semêa para gasto da casa; e não se fasem tentativas variando as sementes, ou preparando-as antes de as lançar à terra, até se conseguir que a ferrugem não volte.
A mandioca que dá muito bem por quase toda a parte não tem sido capaz de desafiar a cobiça dos Fazendeiros, a pezar do excessivo preço porque se vende a  farinha. Muitos outros productos estão no mesmo caso.
Preciza-se entremear colonos agricultores por todos esses grandes desertos para que o exemplo mude as tendências da população.
Alem desta medida, convem que ao mesmo tempo se anime, com premios, o desenvolvimento tanto da Agricultura, como da Indústria, dando-os, já a quem produzir maior quantidade, já a  quem introduzir producto ou industria desconhecida no Paiz; já  enfim  a quém achar os meios infalliveis de destruir, ou evitar os flagellos que atacarem alguma espécie, como a ferrugem a respeito do trigo.
Deste modo variando, e tornando-se consideráveis muitos produtos de agricultura, e muitos generos de industria, ainda que hum ou outro venha a perder a estima no mercado, não a perderão todos, e a Província marchará em sua prosperidade.
Hum dos maiores obstáculos q’ se tem opposto nesta Província ao desenvolvimento da Agricultura e mesmo ao da população, he a existência de grandes Fazendas, ou antes grandes de grandes desertos, cujos donos cuidando só, e mal, da criação, tem direito de repellir de seos campos as famílias desvalidas que não tem nem aonde se conservar  em pé.
O Fazendeiro  que possue uma sesmaria, tem por sua conta um deserto de 3 legoas quadradas. Se possue  duas, trez, ou mais Sesmarias he Senhor de 6, 9, ou mais léguas de deserto, que ninguém mais habitará. Huns poucos de fazendeiros successivos, fasem deserta uma porção de terreno maior do que a ocupada por alguns pequenos Estados d’Allemanha, e as famílias pobres andão errantes a pedir abrigo a hum e outro, sem que alguém lhes valha. Deste modo nunca se desenvolverá a população da província.
Embora se diga, que essas grandes Fazendas tem de ser divididas pelos futuros herdeiros dos actuaes possuidores : este caso dá-se algumas vezes, mas também se dá o de haver um herdeiro que toma a si as partilhas dos outros a dinheiro, e ainda augmenta os seos campos com outras compras, e assim o remédio pelas sucessões será tardio.
Não proporei que se ofenda esse direito de propriedade, quando possuída a legitimo Titulo; mas alguns modos há de ir destruindo este mal, e mais depressa talvez do que se pode esperar. Eu conheço os seguintes
O primeiro pode ser obrigar os Fazendeiros, a se medirem e demarcarem á sua custa, como he de seu dever, pedindo à Assembléa Geral permissão para dispor das sobras, e para os vender em pequenos lotes,ou os aforar a quem as pretender.
Aos possuidores que não tiverem Títulos provenientes de Sesmarias, deve-se-lhes marcar á sua custa o terreno preciso para conter o dobro ou o triplo dos animais que tiverem, regulando a mil cavallos por legoa quadrada, ou a duas mil rezes pelo mesmo terreno : e quando as terras forem de  plantação, dando-lhes tantos quadrados de cem braças de lado quantas forem as pessoas que possão empregara nesse serviço. As sobras devem ter o destino das primeiras.
O segundo modo, he mais fácil, e mais promto; e vem a ser: empregarem-se todos os annos de dez a vinte contos de reis em comprara terrenos, a quem os vender, dividindo-os logo em lotes de 200 braços sobre 50, ou de cem mil braças quadradas, que he o seu equivalente. E vendel-os ou aforal-os á quem quizer.
Finalmente o terceiro que julgo possível he: torna-se a Fazenda Provincial (quando tenha de receber sello de Herança e Legado) coherdeira na distribuição dos campos, e receber a sua parte em terras, e o resto em moeda corrente; e a essas terras dar o destino que fica dito.
Este modo obrigará mais depressa que qualquer outro á divisão dos campos”. http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/878/000012.html 
                                                                                                                               Foto Círio Simon
Fig. 08 –Capela Rosário São José do Hortêncio – Base de umbral de uma porta da CASA SIMON

Para perceber com quem contava e a quem este presidente estava se dirigindo, neste Relatório Presidencial, de 1849, é necessário ler o parágrafo anterior a este texto, http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/878/000012.html. Dirigia-se às autoridades dos municípios. Município politicamente dominado pelo coronel latifundiário que tem direito de repelir de seus campos as famílias desvalidas que não tem nem aonde se conservar  em pé”  segundo o Presidente. A sonegação de dados, as reticências e a procrastinação no enviou de dados, números, fontes e carências, pode ser explicada por razões políticas, econômicas e sociais desta autoridade municipal não colocava a Agricultura em pauta nos seus feudos
“PRODUCTOS DA PROVÌNCIA.
Por huma circular, e muita a tempo, exigi das Camaras desta Província notícias sobre as diversas produções dos seus Municipios. E das  riquezas naturaes, como Lagoas, Rios, e productos Mineraes; bem assim de quaesquer fábricas e outros objectos de Industria, regulando esta exigência  do melhor que pude, e até agora so tenho recebido resposta das câmaras constantes do Mappa junto sob n. 13 que já Valle a pena de o ler” http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/878/000049.html  

Se neste mapa fosse realizada uma pesquisa intensa, seria possível verificar que há mais silêncios evidentes, do que registros que o governante conseguiu das autoridades municipais reticentes.
Origem da imagem – Zero Hora Porto Alegre 28.08.2010
Fig. 09 – SOCIEDADE de CANTO – Riopardinho  - Santa Cruz do Sul RS– AGRICULTORES  CANTORES e MÙSICOS

A oposição entre o latifúndio à agricultura familiar pode ser vista na atualidade como componente material deste confronto e com erupções continuadas. Esta oposição mantém aberta uma chaga que pode se infeccionar como se infeccionou ao longo do Estado Novo em que  o pretexto para o estranhamento foi a língua e uma hipotética adesão ao regime nazista e fascista dos migrantes. Estes migrantes tinham saída de uma outra Alemanha, cheia de Estados soberanos ou de uma Itália em penoso processo de unificação. Estes Estados europeus e os migrantes estavam separados, há mais de um século, pela economia, pela política e até na própria língua. Esta separação foi vista como irreversível, mesmo no século XIX, quando as lideranças do imigrantes insistiam na integração econômica, social e política com a nação que financiara a sua atração, vinda, transporte, instalação e os primeiros anos de produção agrícola e industrial
Fig. 10 – ERNESTO SCHEFFEL – SAPATEIRO – 1993  - óleo -  82 cm x 70 cm
Este investimento do passado não possui argumento consistente contrário. Numa visão da atualidade, e sob o olhar do Sapateiro pintado por Ernesto Scheffel,  este retorno foi líquido e certo, tanto para o Esatdo como para o imigrante. Basta tomar por referência os atuais tributos - diretos e indiretos - que se originam do projeto imperial de 1824.  Não há porcentagem capaz de expressar o retorno destes capitais iniciais, tomando por referência os erários públicos e particulares e com projeção estadual, nacional e latino americano.

Fig 11 Bandeira do “GESANG VEREIN EINTRACHTSociedade de Canto Harmonia”–
 Museu Histórico Visconde de São Leopoldo

Até aqui, acompanhou-se  a visão imperial da agricultura, do latifúndio e do minifúndio. Falta acompanhar nesta questão o contraponto Farroupilha. Estes temas certamente são passíveis de pesquisa nos jornais Farroupilhas. Os números começam a fazer sentido reforçando o desmentindo a tese, a antítese e colaborando para uma síntese mais coerente com todas as partes envoltas no confronto.


BIBLIOGRAFIA
BOSSI, C. Bartolomé (1819-1889) .Viagem pitoresca pelos rios Paraná, Paraguai, São Lourenço, Cuiabá e o Arinos – Brasília : Senado Federal, 2008 132 p. (Vol.101)

TÓPICOS dos RELATÒRIOS dos PRESIDENTES da PROVÌNCIA

Blog HISTÒRIA de SÃO LEOPOLDO

Blog HISTÒRIA de NOVO HABURGO

Blog FAMÍLIIA VOLTZ
http://familiavoltz.blogspot.com/2010/02/carta-de-1832-resgata-peripecias-da.html






No dia 25 de março de 1836

-        O presidente Araújo Ribeiro dirige uma proclamação aos colonos de São Leopoldo, aconselhando-os à abstenção, na luta que ia ser travada no Rio Grande, ou a seguirem as armas da Legalidade.
-         Correio do Povo ANO 116 Nº 176 - PORTO ALEGRE, SEXTA-FEIRA, 25 DE MARÇO DE 2011

PENNA Belizário Pequenas Propriedades Agrícolas e Latifúndios Pastoris : riqueza e pobreza . Algarismos que bradam. Almanaque do Globo – Porto Alegre : Globo 1931 nº 15 , pp.51-57

SÁ , Men de Azambuja (1906-1989) Confronto entre características democráticas e econômicas de três regiões do Rio Grande do Sul Província de São Pedro – Revista trimestral – Porto Alegre : Globo, 1945 - nº 1,  pp. 49-58